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7/13/2004

Ponte Europa: caminhos para o despesismo

Auditoria do Tribunal de Contas condena actuação do Instituto de Estradas de Portugal, soube o Correio da Manhã. Nada já é novo... Esperam-se o apuramento de responsabilidades.

6/23/2004

Tugas no Oriente



António Oliveira entrega a constituição da equipa aos seus adjuntos a vinte minutos do primeiro embate para o primeiro jogo do Mundial 2002. O mister dá umas indicações rápidas e sobe ao relvado. Beto está escalonado mas não sabe se joga a central ou a defesa esquerdo, uma vez que Oliveira não o elucidou. Pergunta a um dos técnicos como vai ser e tem a seguinte resposta:" Lembras-te do jogo contra a Alemanha no Europeu? Começaste a central e, passados alguns minutos, descaíste para lateral. Vai lá para dentro e habitua-te à situação". O resultado é o que se sabe.

António Oliveira não fala com os adjuntos Rui Caçador e José Romão, não explica aos jogadores o que espera deles em campo, ignora as recomendações de Neca e cede às pressões dos craques. Fora do balneário as coisas não corriam melhor.

No jantar da noite de 29 de Maio de 2002, a noite do passeio na praia, Neca e Silvino, juntamente com Oliveira, saem dos quartos a 01.10 da manhã, segundo diz o relatório Boronha e voltam às 4. O que eles não revelaram: foram jogar num casino e o mister terá perdido dois mil contos.

Na manhã seguinte, Boronha, indignado, questiona Neca e Silvino. Por ele, metia-os num avião de regresso a Portugal, por desrespeito pelas regras internas. Como não pode, passa o ônus da decisão a Madaíl. Este satisfaz-se com a resposta dos dois técnicos de que terão ido apenas passear na praia de Hac-sa. Oliveira, no entanto, não gosta que o vice-presidente da federação ponha em causa os seus adjuntos e não dirige mais a palavra a Boronha, que salientou o sucedido no seu relatório.

Na verdade, Oliveira já tinha a cabeça noutros projectos. Seis meses antes do Mundial, tinha-se comprometido com o Benfica. Chegara a um acordo de cavalheiros com Luís Filipe Vieira, que passava por um reforço da posição da Olivedesportos. É combinado, aliás, que o anúncio oficial só será feito depois de Portugal passar os oitavos-de-final. Nunca abriu o jogo com ninguém mas faz comentários informais com Boronha, no mínimo, comprometedores: "Depois da selecção, só me interessa o Benfica."

O futuro estava tratado mas o presente está ameaçado. Carlos Queiroz é despedido nos primeiros dias de Março do conjunto sul-africano e Oliveira pressente que este é o desejado da Federação Portuguesa de Futebol. Fica obcecado com o "fantasma Queiroz e acha que Godinho, Romão e Caçador são "espiões". E Boronha para lá caminhava.

As desconfianças já vinham de trás. A 1 de Agosto de 2000 António Oliveira foi escolhido por Madaíl para o cargo de seleccionador nacional. Numa reunião da direcção, os nomes de Carlos Queiroz e Rui Caçador são considerados mas só Boronha vota em Queiroz, que era, aliás, a escolha de poucos jogadores consultados. Nos dias seguintes, Boronha confidenciou a Joaquim Oliveira, irmão do seleccionador, que tinha votado em Carlos Queiroz. Oliveira, o António, não gostou.

Outro detalhe: nos primeiros tempos Madaíl reformulou a hierarquia da FPF e coloca Godinho na mesma posição de Oliveira. Um mandava no futebol e outro na organização. Estala o verniz quando a 13 de Março, com Portugal já qualificado para o Mundial asiático, Oliveira acha que Godinho tem poderes a mais e acha que tem direito em escolher os observadores dos adversários. Madaíl põe água na fervura e nomeia Neca, um escolhido do seleccionador. António Oliveira também não se conforma com o facto de Godinho passar muito tempo na conversa ao telemóvel com os jogadores. O presidente da FPF propõe que este se abstivesse, Godinho aceita mas ressentido. Apesar de Madaíl sentir as fracturas, apela a um faz de conta em nome dos interesses da Federação.

A relação entre a FPF e os jogadores também está má por causa de hinos, medalhas e mascotes. Um contrato com os jornais Record e Correio da Manhã, para oferecer medalhas com as efígies dos jogadores é contestado. Estes não gostam e é já na Coreia do Sul que reivindivam direitos de imagem e esclarecimentos sobre o negócio e ameaçam avançar com os advogados.

Surge também a questão do hino. A FPF convida os media para a canção oficial "Portugal a Cantar", os jogadores são os últimos a saber e boicotam a iniciativa. Ainda por cima já tinham gravado um hino com o Paulo Gonzo. A questão da mascote: odiaram o nome "Tuga" e recusaram entrar no Estádio José de Alvalade, no jogo de despedida do país, com as mascotes. Nas imagens televisivas, vê-se alguém a bloquear a passagem dos bonecos.

A relação Oliveira-Madaíl não era um mar de rosas. Dias antes da partida para Macau, aquele pede um aumento de ordenado e o presidente remete a situação para depois do campeonato. Terá confessado que ponderava demiti-lo. No entanto, deteve-se e a 13 de Maio soube, como todos os outros, quais seriam os 23 jogadores convocados. Na véspera, Godinho encontra-se no seu gabinete a espera de um telefonema para saber quem seriam os convocados e informar os respectivos clubes. Não obtém resposta e telefona a Boronha: quer demitir-se, não aguenta o faz de conta. O vice- presidente convence-o a ficar. Sabem, tal como os adjuntos, os nomes dos escolhidos para a selecção de futebol no dia seguinte. É um sinal de que Oliveira não conta com eles.
Outro acontecimento polémico foi a acusação positiva de doping de Kennedy. O seleccionador arma um julgamento popular dos médicos da equipa "por terem promovido uma despistagem no CNAD (Conselho Nacionam de Anti-Dopagem) e não num laboratório semi-clandestino onde os resultados fossem confidenciais", lê-se no relatório Boronha. Alguns jogadores colocam-se junto de Oliveira e dramatizam a situação, defendendo a permanência do jogador do Marítimo. Pelo menos, mais cinco jogadores estavam no limite, sabiam os responsáveis.

Sabiam mais pois o relatório dos médicos recomendava treinos ligeiros a jogadores que não estavam em condições. Há quem diga que foi Oliveira a decidir sozinho mas o certo é que o staff técnico não se opôs aos treinos bi-diários.
Boronha adianta no seu relatório: "Oliveira não elaborou, como era da sua competência, a programação da selecção". Alguém próximo do seleccionador diz que deixou de aparecer no Jamor a partir de Abril.

Oliveira é também um homem de superstições. Um responsável federativo jura que ele ordenou a empregados da federação que enterrassem partes de animais mortos em certas zonas do campo. As canadianas que não larga, depois de uma entorse, notam-se mas aqui ninguém arrisca. Certo é que Oliveira mandou colocar dentes de alho mordidos no equipamento dos jogadores antes do jogo contra a Polónia. Alhos espalhados no chão do balneário? "Não, foram os jogadores que os deitaram ao chão depois de os descobrirem", afirma uma testemunha da cena.

Os métodos de Oliveira são estranhos aos jogadores e Fernando Couto interpela o seleccionador porque é que treinava uma equipa e punha a jogar outra (Referindo-se-se à entrada de Beto e de apenas um trinco contra os americanos, ignorando os relatórios de Neca que aconselhava dois) e Figo interpela-o também. Oliveira só fala de inimigos interno e nada do jogo. "Quem são?",pergunta. "Boronha e Godinho", responde.

A comunicação com o jogadores degrada-se. Numa conversa com João Pinto e Rui Costa, no último treino antes do embate conta os polacos, o seleccionador explica que um deles não jogará mas não diz quem. Não percebem esta opção, se já estão em forma, e não Luís Figo, visivelmente em baixo. Os jogadores com maior peso comentam pelos quartos. O nervosismo instala-se e João Pinto nunca mais será o mesmo.

Na conferência de imprensa antes do jogo contra a Coreia, enerva-se, dizendo que não entende porque questionam a sua titularidade. Um dos responsáveias federativos conta que o avançado joga sabendo que vai ser substituído por Rui Costa ao intervalo. João Pinto sabia que Figo não sairia. Sobra para ele. Está desiquilibrado e nervoso, entra violentamente sobre um coreano e agride o árbitro que o expulsa, Angel Vidal. A derrocada começa: Beto é também expulso, Oliveira não age a tempo e Portugal é mandado para casa sem honra nem glória.

Interessante é que no sábado, dia do jogo, os jogadores confessam aos jornalistas histórias de bastidores, dirigentes queixam-se. Madaíl confessa-se: "Se pudesse, abandonava já. Estou cansado disto tudo. Só fico por causa dos compromissos do Euro 2004". Nunca assumirá a sua quota de responsabilidade pelo fracasso.

Numa famosa conferência de imprensa inédita pelo seu mediatismo e vacuidade de argumentos, transmitida pelos três canais nacionais à hora de jantar, Gilberto Madaíl agradeceu no fim aos jornalistas pelo facto de não terem desestabilizado a selecção durante o Campeonato do Mundo. Ninguém tratou de nada durante e depois dos acontecimentos. Teve que ser uma revista masculina, guiada pelo prisma de futebol e mulheres, a tratar do assunto.

Leitura recomendável
-Revista super Maxim, (agora Maxmen), nº 17, Agosto de 2002



6/21/2004

Açores: o pais que nunca o foi (parte III)

(Vitorino Nemésio)

Vitorino Nemésio, brilhante escritor açoriano do século XX – autor da conhecida obra Mau Tempo no Canal, comunicador da RTP e professor universitário –, é uma das figuras mais marcantes da história do Arquipélago dos Açores. É um dos seus mais amados escritores – junto com Natália Correia e Antero de Quental – e um teórico para a situação política açoriana.

É sabido que Vitorino Nemésio partilhava ideias com os independentistas com outros pensadores e não lhe estranhava a ideia de um sentimento de açorianidade: “ os açores precisam de ser independentes, mas unidos a Portugal (…). É bom que haja um movimento separatista nos Açores porque esse sentimento de açorianidade não é nenhuma invenção de literatos. É uma coisa concreta que o povo sente”, afirma Nemésio, mostrando o seu lado mais poético da questão.

Nemésio era considerado, consequentemente, o possível “chefe de Estado” para uma eventual criação da nação açoriana (tendo sido criadas, até, umas polémicas notas de banco com o seu rosto, emitidas pela FLA). Muito acariciado pelos membros da FLA – como diz Nuno Costa Santos, na sua reportagem para a revista Grande Reportagem –, Nemésio, contudo, mantém a sua postura mais virada para a autonomia, não levando muito além o seu apoio aos intentos separatistas. Mas, não obstante este facto, Nemésio foi “levado” para este movimento por pressões de fora: a própria Natália Correia aproveitou-se – bem como muitos membros da FLA – do facto de Nemésio estar “caído” de amores pela Marquesa de Jácome Correia – cujo casa serviria de “centro” de reuniões da FLA, onde a Marquesa descreve no seu livro de Memórias a presença nestas reuniões de António de Spínola, Américo Tomás, Natália Correia (que assediava constantemente a Marquesa de Jácome Correia), entre outros –, num estado de fragilidade emocional de Nemésio.

Os amores de Nemésio e a infidelidade da marquesa

Esta relação de Nemésio com Margarida Victória (a Marquesa) não é muito bem aceite pelas famílias destes dois, nem pelo público. Nemésio mantinha uma imagem tradicionalista, com ligações imagéticas com o salazarismo; católico, pai de quatro filhos, Nemésio é considerado como a última pessoa de quem se poderia esperar aventuras extraconjugais.

Nos relatos dos seus dois livros de memórias – o primeiro reeditado e o segundo a ser editado pela primeira vez –, a Marquesa descreve as suas relações sodómicas com vários dos seus amigos do ciclo mais restrito, que a assediavam constantemente. Da sua relação com Nemésio, Margarida Victória conta as ânsias que tinha por Nemésio, a forma como que se amavam.

De Nemésio restam os muitos poemas eróticos escritos em honra da sua amante – condição esta que ambos faziam questão de manter –, poemas estes compilados em duas obras. De resto, ambas as famílias destas duas personalidades mantiveram um enorme sentimento pudico em relação às provas escritas das infelicidades da Marquesa e dos amores de Nemésio.

Leituras úteis:
Amores da Cadela "Pura", de Margarida Victória
artigo da Grande Reportagem, nº 177 - A Marquesa E Os Seus Amantes
http://www.instituto-camoes.pt/escritores/nemesio/sorrisomarga.htm
http://www.instituto-camoes.pt/escritores/nemesio/noticias.htm
http://www.joelneto.com/reportagens/aultimapaixao.htm
Angola: Xadrez da Guerra Fria

Enquanto Portugal se preparava para abandonar os seus territórios africanos o mais depressa possível, as duas grandes potências, EUA e URSS, jogavam os seus peões no xadrez angolano. Contrariamente ao que sempre afirmaram os seus dirigentes, os EUA fizeram a primeira jogada, quando em 18 de Julho de 1975 aprovaram uma ajuda às forças anti-MPLA de 14 milhões de dólares.

Documentos secretos dos arquivos cubanos e norte-americanos consultados por Piero Gleijess, e que resultaram no livro Conflicting Missions: Havana, Whashington and Africa, 1959-1976 provam que a Administração Ford interveio no conflito antes da chegada dos cubanos. Provam que também os Estados Unidos acompanharam e até coordenaram a invasão sul-africana da antiga colónia portuguesa. E que um homem mentiu sempre sobre estes assuntos: Henry Kissinger.

Em Janeiro de 1975 os três movimentos armados angolanos MPLA, FNLA e UNITA assinam com Portugal o Tratado de Alvor, comprometendo-se a aceitar eleições em Outubro desse ano. Nesse pressuposto, a data de independência é marcada para 11 de Novembro. Mas nenhuma das partes estava disposta a disputar o poder em eleições e envolvem-se numa guerra civil. Portugal também não acreditava no sucesso do acordo mas age como estava previsto.

Os EUA analisam a situação. Na reunião de 27 de Junho de 1975 do Conselho Nacional de Segurança, o secretário de Estado da Defesa, James Schlesinger, mostra-se céptico em relação ao poder real de Holden Roberto, líder do FNLA, (apoiado financeiramente pelos americanos) e ao um eventual envolvimento no conflito angolano, defendendo apenas uma intervenção com garantias de vitória. Se assim não fosse, segundo ele, deveria optar-se pela neutralidade. Em contrapartida, defende que os EUA devem encorajar a desintegração de Angola, ficando Cabinda nas mãos de Mobutu, o que garantiria a continuidade da exploração do petróleo pelos norte-americanos.

Menos de um mês depois, é aprovada uma verba de 14 milhões de dólares para apoiar as forças anti-MPLA. Kissinger, Secretário de Estado, não segue a opinião do cônsul em Luanda de que é com o MPLA que os Estados Unidos devem trabalhar porque considera este movimento o mais bem preparado para governar Angola. E mostra-se a favor de uma intervenção norte-americana afirmando que "os jogadores que temos (FNLA) são perdedores".
Estava lançada a "Operação Lafeature", coordenada pela CIA. Para conseguir a sua aprovação, Kissinger não hesitou em falsificar números e datas sobre a presença de cubanos em Angola.

Estes só chegaram em Agosto e eram cerca de 500 instrutores militares, numa corrida dramática para transformar jovens angolanos em militares preparados para combater.
O MPLA, com o apoio da URSS e países do Bloco de Leste e a simpatia da ala esquerda do MFA, era o movimento com maior expressão nacional e maior reconhecimento internacional. No entanto, estava claramente enfraquecido no campo militar e o líder, Agostinho Neto, era contestado.

A URSS apoiava-os com armamento mas com hesitações. Por isso, os cubanos respondiam aos apelos do MPLA. Os documentos revelam que agiram sem consultar os soviéticos e que estes mostravam-se mais cautelosos. Apesar de vários envios de armamento, só se envolveram declaradamente depois da invasão de Angola pelo exército sul-africano. E só apoiaram com meios aéreos o transporte de tropas cubanas para Angola para responder à invasão no início de Janeiro de 1976, isto é, quase dois meses depois da declaração da independência.

A invasão era do conhecimento norte-americano e coordenado pela CIA. A África do Sul veio em auxílio da UNITA e do FNLA, entretanto aliadas, e entrou a 14 de Outubro de 1975 em território angolano para conquistar a capital. A acção de Cuba foi fundamental para o MPLA conservar este bastião e aguentaram-se até a data da independência, 11 de Novembro. Nessa altura vários países reconheceram o MPLA. Os sul-africanos, perante a indefinição dos Estados Unidos, iniciam uma retirada ordenada.

Leitura recomendada
-"No centro da Guerra Fria", Notícias Magazine,nº546,10 de Novembro de 2002

Açores: o país que nunca o foi (parte II)


(Mota Amaral)

Durante todo este processo de tentativa de independentismo, à “causa açoriana” juntaram-se muitos ilustres da cena política açoriana – e não só –, muitos deles sob a capa da clandestinidade e do secretismo. De realçar o envolvimento – confirmado – do então presidente do Primeiro Governo Autónomo dos Açores, e o actual presidente da Assembleia da República.

João Bosco Mota Amaral foi uma figura proeminente em todo o processo da independência açoriana, quer pela positiva, quer pela negativa. É-lhe inegável – segundo revelações recentes de altas figuras de todo este processo – a acção directa na criação da Frente de Libertação dos Açores, pelo facto de ter sido Mota Amaral o autor dos princípios reguladores deste grupo independentista.

Valdemar Oliveira, um dos doze fundadores do PPD/Açores, confirma a “militância” independentista de Mota Amaral. De facto, foi estratégia política por parte do PPD/Açores “roubar” elementos da FLA para as suas fileiras. O próprio Mota Amaral (fundador do PPD/A) tinha como aspirações a reafirmação da autonomia açoriana, e a consequente ambição do independentismo – daí a “táctica” de recrutamento de membros ligados à “causa açoriana”.

Junto com Spínola, em Paris (segundo o ex-membro da FLA, Luís Franco), Mota Amaral não se deteve em se reunir com os altos dirigentes da FLA – nomeadamente com José de Almeida, com quem teve longas e comprometedoras conversações no sentido de estabelecerem uma política para a região e a consequente declaração unilateral da independência doas Açores – a ter lugar em 1978. Segundo muitos conhecedores deste processo – e mesmo antigos e actuais membros da FLA – Mota Amaral funcionava como uma espécie de “ministro dos Negócios Estrangeiros do governo clandestino da FLA”.

Para se perceber até onde vai a acção de Mota Amaral, onde começa e onde acaba o seu apoio à causa, é necessário apontar para o facto deste ter estado em “negociações” com Giscard d’Estaing – presidente da República Francesa na altura –, que mostrava o seu receio que o comunismo se alastrasse de Portugal a Espanha e, consequentemente, para a França e o resto da Europa. Neste processo, o embaixador americano Frank Carlucci servia de elo de ligação com os parceiros do lado de lá do Atlântico.

Visto estas ligações terem falhado – o intuito de conseguir apoio americano e europeu para a causa –, os dirigentes da FLA voltaram-se para uma outra falange de apoio: grupos líbios, argelinos e outros países árabes. Como a FLA se estava a envolver em “maus lençóis”, Mota Amaral, apercebendo-se do perigo que constituíam estas ligações, resolveu retirar o seu apoio, num recuo estratégico – que por muitos foi rotulado como “traição” e “cobardia”. As actuações do presidente da Assembleia da República permaneceram clandestinas e desconhecidas do público, até que José de Almeida redige uma “carta aberta ao povo açoriano”, onde expõe a participação de Mota Amaral como um dos principais cúmplices neste processo.

Foi esta ruptura entre estes dois homens que ditou o fim das aspirações açorianas para a independência. Sem saberem que se distanciariam irremediavelmente, estas duas figuras importantes do pós-25 de Abril nos Açores ditaram o princípio e o fim da “causa açoriana”.


Link útil:
Artigo d'A Rede sobre o desenvolvimento local nos Açores


6/20/2004

Video da decapitação de Nick Berg pode ser uma fraude

O vídeo da execução do civil norte-americano de 26 anos de idade, Nick Berg, decapitado a 11 de Maio, é considerado um embuste. A conclusão é do sítio La Voz de Aztlan, que realizou cinco dias depois, uma análise das imagens e notou pormenores que indicam a ideia de que foi tudo uma diversão, gravada na prisão de Abu Ghraib, para desviar a atenção do escândalo das torturas sexuais praticadas aí.

O vídeo de fraca qualidade de imagem foi divulgado pela organização islâmica Muntada al-Ansar e começa por mostrar um homem sentado numa cadeira de plástico e vestido com uma espécie de ‘macacão’ cor-de-laranja.

Na segunda parte do vídeo, o homem de laranja está já sentado no chão, com cinco encapuzados atrás de si, de pé. Um desses homens aproxima-se das costas do norte-americano e lê um depoimento, afirmando que a execução de Berg é uma retaliação pelos maus tratos infligidos aos prisioneiros iraquianos nas prisões norte-americanas no Iraque. Logo de seguida, o mesmo homem ergue uma grande faca, empurra o civil para o chão, com a ajuda dos outros, e decapita-o. Ouvem-se gritos de horror e gritos a Alá. Depois, o ‘carrasco’ ergue a cabeça de Nick Berg.

Segundo o La Voz de Aztlan, a alegada execução pode ter sido encenada já que na altura da decapitação, o normal seria que uma grande quantidade de sangue espirraria e mancharia os executantes, algo que não acontece. Além disso, a vítima enverga uma farda cor-de-laranja, idêntica aos dos prisioneiros de Guantanamo e sentado numa cadeira de plástico branca, igual àquelas utilizadas na prisão de Abu Graib. Outro dos índicios é o aparecimento breve do que parece ser um militar norte-americano, só vísivel através de uma passagem do vídeo frame por frame, em que revela a sua boina militar.


Link útil
Artigo complementar publicado no AsianTimes

Açores: o país que nunca o foi



Em 1975, Portugal vivia um clima de instabilidade, resultante da revolução que pôs fim a quase meio século de ditadura fascista. Até 25 de Novembro de 1975 o país viveu uma das épocas mais marcantes da sua história, mas um pequeno grande aspecto deste marco que foi o 25 de Abril não é do conhecimento de todos os portugueses.

Enquanto que em Portugal continental os revolucionários se debatiam para definir a futura situação politica do país – e, consequentemente, a sua estabilidade após tamanho período de confusão e agitação –, no arquipélago dos Açores, um grupo de homens desenvolvia contactos com potências internacionais para que fosse declarada unilateralmente a independência deste grupo de ilhas – entre essas potencias encontrava-se a NATO, como grupo organizado de nações, que se preparava para atestar a legitimidade das aspirações açorianas, dando-lhes, inclusive, apoio que ia além do apoio teórico e moral.

No centro desta vontade de independência está um movimento independentista organizado, a Frente de Libertação dos Açores (FLA). À cabeça deste movimento está José de Almeida, na altura, um grande amigo do actual presidente da Assembleia da República, Mota Amaral – uma das figuras em destaque neste processo.

Várias foram as “cimeiras” levadas a cabo entre ilustres açorianos e entidades internacionais. Em Março de 1975, em Londres realizar-se-ia a cimeira que instituiu os princípios pelos quais a FLA se deveria reger, princípios estes que ninguém do movimento independentista nega terem sido redigidos pelo actual presidente da Assembleia da República. O próprio José de Almeida confirma a presença de Mota Amaral em duas destas reuniões secretas do FLA.

Uma das regras fundamentais para se pertencer ao FLA era “não ser comunista”. Este foi um dos principais motivos para que o independentismo crescesse: para a direita portuguesa era importante vencer a esquerda; para os países da NATO – nomeadamente os Estados Unidos da América – era muito importante que o comunismo não se alastrasse de Portugal para o centro da Europa. O que levou, de facto, a que o presidente Gerald Ford (dos EUA) consultasse dirigentes europeus para se inteirar da situação política que se vivia em Portugal. O alemão Helmut Schmidt dissuadiu-o de apoiar incondicionalmente a causa açoriana, alegando que não havia o risco de ser instaurado um regime comunista em Portugal, facto este que retirou o apoio internacional à causa da FLA. De resto, vivia-se nos Açores (onde os costumes catolicistas eram muito vincados) sob a ameaça e medo do movimento Comunista.

A gota de água que fez desencadear a fase mais “violenta” e reaccionária deste movimento foi a prisão indiscriminada de pessoas influentes, da ilha de S. Miguel, que apoiavam a independência açoriana – tudo isto após uma manifestação contra as condições em que a lavoura açoriana vivia, que resultou na demissão do governador civil, António Borges Coutinho, e nos consequentes gritos de apelo à independência.

Leitura útil:
Nº 138 da Grande Reportagem (artigo "Independentismo açoriano")

6/19/2004

Massacre de Tiananmen permitiu “boom” económico chinês

Na altura em que se comemora o décimo quinto aniversário do massacre de Tiananmen, o Governo chinês vem defender que este evento foi fulcral para o crescimento económico do país.

Numa conferência de imprensa dada a 6 de Março, o responsável máximo pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Tang Jiaxuan, declarou publicamente que a intervenção militar na Praça de Tiananmen (que se saldou na morte de centenas de partidários pró-democracia, na prisão de centenas de estudantes e trabalhadores e numa carga militar sobre os mais de dez mil manifestantes) foi fundamental para que o país atingisse o "nível de estabilidade e desenvolvimento que hoje apresenta".

Além disso, o Governo chinês ordenou que todos os seus médios e altos funcionários visionassem um documentário sobre os incidentes de 4 de Junho de 1989, com quatro horas de duração, onde a intervenção militar sobre os manifestantes é apresentada como inevitável.

Entretanto, segundo a Amnistia Internacional (AI), as detenções relacionadas com os acontecimentos de há quinze anos atrás continuam. Ainda no início deste mês, esta organização internacional deu notícia de várias detenções de familiares de vítimas da carga militar que ocorreu na Praça Tiananmen, numa tentativa governamental de evitar que o dia 4 de Junho de 1989 fosse recordado de alguma forma.

Por outro lado, a AI acusa o Governo chinês de não tornar público o número de mortos no massacre: “Só recentemente foram descobertos os corpos de centenas de pessoas que foram mortas durante a intervenção do Exército, em túmulos anónimos, no centro do Pequim", refere a organização, que contabiliza em pelo menos 50 o número daqueles que continuam presos devido à sua participação nas manifestações pró-democracia de 1989.

Ainda hoje, grande parte dos acontecimentos da Praça de Tiananmen continua por desvendar, com poucos a entenderem realmente a sequência de eventos que culminou nos acontecimentos de 4 de Junho de 1989. A começar pela própria população chinesa, especialmente os mais novos, sujeitos a um controlo político da informação muito rígido. No entanto, aqui parece existir um reeditar das causas dos protestos de 1989, com muitos estudantes a utilizarem a Internet para se informarem em sites estrangeiros sobre esse momento marcante da sua história recente.

O certo é que as respostas, lentamente, começam a surgir. Por exemplo, algumas podem estar contidas nos Tiananmen Papers, um alegado conjunto de documentos oficiais chineses, roubado, traduzido e publicado em segredo. Se autênticas, estas transcrições de reuniões de alto nível das principais figuras da cúpula governamental dão a conhecer profundas divisões no seio da liderança do Partido Comunista Chinês aquando dos acontecimentos que culminaram no massacre de Tiananmen.

Links úteis:
- Os quinze anos do massacre de Tiananmen na imprensa internacional
- O massacre de Tiananmen em imagens
- O massacre de Tiananmen (entrada da Wikipedia)

6/08/2004

CIÊNCIA
Cientista alemão afirma ter descoberto a Atlântida


Um cientista alemão pode ter encontrado os vestígios da Atlântida, a cidade perdida. Imagens de satélite do sul de Espanha, perto de Cádiz, revelam uma estrutura no solo que se assemelha à descrição da cidade mitológica feita por Platão.

Rainer Kuehne, da Universidade de Wuppertal na Alemanha, declarou à BBC que as imagens mostram duas estruturas rectangulares rodeadas por partes de anéis concêntricos, tal como descreve Platão. O cientista acredita que estas estruturas podem ser os restos de dois templos, um em honra a Poseidon e outro a Cleito e Poseidon.

Para Kuehne a Atlântida descrita pelo filósofo grego refere-se a uma zona da costa sul espanhola inundada nos anos entre 800 a.C. e 500 a.C.. A descoberta, que é ainda um projecto em desenvolvimento, foi anunciada no jornal on-line Antiquity.

As dimensões das estruturas agora reveladas diferem das medidas descritas por Platão, o que se pode dever ao facto de a unidade de medida usada na altura ser 20% maior do que a actual. Se isto se confirmar as duas grandes formas rectangulares coincidem na perfeição com os templos descritos pelo filósofo grego.

Actualmente nas minas de Sierra Morena, na Espanha, extraem-se grandes quantidades de cobre, Platão na sua descrição fala da abundância desse material e de outros metais na Atlântida

A área é parte integrante do Parque Nacional Donana o que pode dificultar possíveis escavações arqueológicas, uma das pretensões do cientista.

6/06/2004

Eleições longe de cativar europeus

Após bastante polémica em Portugal, com vários analistas a acusarem as campanhas partidárias para as eleições para o Parlamento Europeu de não abordarem assuntos relativos à União Europeia (UE) mas sim temáticas nacionais, é agora o presidente da Comissão Europeia, Romano Prodi (na foto), que vem concordar com esta crítica.

Segundo Prodi, em entrevista à agência noticiosa Reuters, estas eleições estão mais a servir para referendar os vários governos dos países-membros da UE do que para discutir questões do fórum europeu: "Em termos reais, as campanhas locais estão maioritariamente debruçadas sobre assuntos nacionais", considerou o presidente da Comissão Europeia, resignando-se com uma expressão curiosa: "É a vida".

Recorde-se que estas eleições para o Parlamento Europeu são as maiores eleições supra-nacionais de sempre. De quinta-feira a domingo, os cidadãos dos 25 Estados-Membros devem eleger 732 eurodeputados, para aquela que continua a ser a única instituição europeia directamente eleita.

Links úteis:
- Artigo do IOL.News sobre as declarações de Romano Prodi
Dossier do jornal "Público" sobre as eleições europeias

6/05/2004

Portugal de portas fechadas

Portugal suspendeu o Acordo de Schengen desde o passado dia 26 de Maio, repondo o controlo das fronteiras. Na base desta decisão estão o Rock In Rio e o Euro 2004.

Com esta medida, o Executivo de Durão Barroso quer salvaguardar a segurança dos participantes e dos espectadores destes dois mega-eventos, ao mesmo tempo que pretende evitar possíveis vagas de imigração ilegal e a entrada no país de cidadãos ou grupos referenciados como causadores de conflitos ou de graves desordens públicas.

Deste modo, até ao próximo dia 4 de Julho, todos os cidadãos comunitários e de Estados integrantes do Acordo de Schengen devem fazer-se acompanhar do seu bilhete de identidade ou passaporte caso pretendam entrar em território português. Já no caso de cidadãos de Estados terceiros mas residentes legais na União Europeia, será obrigatória a apresentação de passaporte (podendo ser igualmente solicitado um visto, dependendo do país de origem) e da autorização de residência no país comunitário em causa.

Embora esta medida seja do desconhecimento da maioria dos portugueses, o certo é que a reposição do controlo das fronteiras já causou o júbilo de vários sectores da sociedade portuguesa. É o caso do Partido Nacional Renovador (PND), conotado como sendo de extrema-direita, que no seu site dá a conhecer os resultados do primeiro dia de suspensão do Acordo de Schengen: "No primeiro dia de fiscalização das entradas, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras recusou a entrada em Portugal a 179 estrangeiros, na sequência da simples verificação dos documentos". O problema, lamentam-se os responsáveis do PND, é que a partir de 4 de Julho, "voltará tudo ao mesmo".

Recorde-se que o último país signatário do Acordo de Schengen a repor momentaneamente o controlo de fronteiras foi a Espanha, aquando do casamento real que uniu o futuro rei daquele país, o príncipe Filipe, e a plebeia Letitia Ortiz.
Notícia da proibição de câmaras digitais no Iraque poderá ter sido um engano

A notícia da proibição do uso de câmaras digitais no Iraque poderá ser um grande erro da imprensa mundial. A suposta ordem de Donald Rumsfeld às tropas norte-americanas terá sido uma criação de um artigo satírico do jornal on-line The Daily Farce.

A história do The Daily Farce data de 6 de Maio, cerca de vinte dias antes de ter sido noticiada pelos principais jornais mundiais. Desse texto consta a frase atribuída ao Secretário da Defesa norte-americano e que terá sido depois reproduzida um pouco por todo o mundo: “as câmaras fotográficas digitais, as câmaras de vídeo e os telefones móveis equipados com câmara fotográfica foram proibidos nas instalações militares norte-americanas no Iraque".

O mesmo site afirma que estas palavras foram proferidas numa conferência de imprensa protagonizada por Rumsfeld. Já os artigos de jornais como o The Washington Times ou, em Portugal, o Público, entre muitos outros, atribuem-na a uma fonte não identificada do Pentágono, que terá prestado declarações ao jornal The Business.

Outro factor que pode levantar algumas suspeitas sobre a veracidade da história é o facto de alguns jornais, como é o caso do Público, se referirem ao The Business como sendo um jornal britânico enquanto que outros, o caso do Washington Times, afirmam tratar-se de um jornal australiano.

Estes jornais avançavam ainda com a possibilidade de a proibição ser alargada a todas as base militares americanas no mundo. A alegada ordem de Donald Rumsfeld foi depois amplamente criticada por ser uma forma de ocultar os maus tratos aos prisioneiros iraquianos de Abu Ghraib e não uma medida para pôr fim a esses abusos.

Apesar da possibilidade da notícia ser falsa não camuflar nem um bocado o atroz comportamento norte-americano no Iraque não deixa de ser um facto, que a confirmar, representa um grande revés para aqueles que acusam os Estados Unidos de querer implementar uma política totalitária de censura.

Links úteis:
- Artigo do site The Register
- Artigo do news.com.au
- Artigo do engadget.com

6/04/2004

A Guerra das Mentes


O fenómeno da globalização, predominantemente de cariz económico, trouxe ao mundo mudanças substanciais na forma das relações entre os estados, nas formas de praticar política externa, entre outras. A globalização económica é a maior força expressiva que o fenómeno, no geral, tem sobre a forma de actuar dos países.
Muitas vezes ouvimos falar do poderio capitalista dos Estados Unidos, e muitas vezes ouvimos também falar sobre o poder que o país norte-americano tem sobre a cena política e económica internacional. Depois de se recusarem a aderir ao plano de Quioto para a redução mundial de poluentes; de manterem estratégias duvidosas para atingirem os seus fins; e mesmo de termos conhecimento das alegadas relações dos altos dirigentes deste país com terroristas – sendo que estes são treinados pela agência de espionagem dos Estados Unidos –, esta nação, que se orgulha de ser grandiosa e “pacificadora”, ensina às suas crianças uma geografia diferente daquela que o resto do mundo está habituada a conhecer.

Nos manuais escolares americanos, da disciplina de geografia, ensina-se às crianças – desde bem cedo – que uma grande área da floresta Amazónia é território internacional, ou seja, isto implica que quem tenha recursos para “explorar” esta parte do “pulmão” do mundo, o faça com total liberdade. O que é mais grave nesta situação é que os jovens americanos estão sujeitos a uma lavagem cerebral desde bem cedo. Como serão os homens de amanhã, estas crianças irão reclamar para si este pedaço de terra, que para os indígenas representa a sua vida e sustento, mas que para os americanos representa mais um “pedacito” de terra a destruir para se produzir riqueza.

Noutro ponto do globo, em Israel, as autoridades estão a mover uma campanha de “lavagem cerebral” para os mais novos. Tudo o que estes vêem na televisão tem uma vertente escondida de manipulação psicológica e de incitamento à guerra contra os palestinianos, isto através do recurso à manipulação mediática que o governo exerce sobre a sua população.

Outra forma desta “sensibilização” à guerra é feita através de videojogos. Não bastava estes serem feitos para “viciar” os jovens em certos produtos do mercado, como agora até são fabricados para dar uma certa versão dos acontecimentos desta guerra que já dura há muitos anos. Nestes jogos as crianças são confrontadas com determinadas questões sobre a guerra e incitadas a levarem a cabo um ódio sobre os seus vizinhos, igualmente crianças que nasceram no seio da guerra.

6/02/2004

A grande derrapagem

Falhas de raíz no projecto, protelação dos trabalhos e um custo global que ultrapassou em mais de 50% do valor inicial é o balanço que se fax à ex-Ponte Europa, agora rebaptizada Ponte Rainha Santa Isabel, a nova travessia da cidade de Coimbra.

Foi inaugurada no passado domingo, dia 30 de Maio. No fim de contas, depois de um custo inicial programado para os 30 milhões de euros, passou-se para os 75 milhões de euros. As responsabilidades, essas, ficam para mais tarde.

Links úteis
- Artigo do Jornal Universitário de Coimbra - A Cabra sobre o desenrolar do processo de avanços e recuos da construção da travessia
- História do processo da ponte, com mais detalhes, na TSF

5/22/2004

As notícias que nunca o foram

Todos os anos, o grupo de investigação Project Censored, da Sonoma State University (SSU) na Califórnia, propõe-se a divulgar as “notícias que não chegaram às notícias”. O objectivo é “promover nos jornalistas a responsabilidade de uma melhor cobertura dos acontecimentos numa sociedade democrática”, acontecimentos que o projecto afirma serem inúmeras vezes ignorados.

Os investigadores partem da análise das notícias que saem nos jornais independentes dos Estados Unidos, das quais destacam anualmente as vinte e cinco de maior relevância social que foram esquecidas, mal divulgadas ou censuradas pelos principais meios noticiosos dos EUA.

Cidadãos comuns, jornalistas e estudantes enviam para universidade entre setecentos e mil relatos por ano. Cabe às mais de duzentas pessoas que fazem parte do projecto, analisar a credibilidade e relevo das histórias enviadas. Depois de submetidas à aprovação final de um jurí, do qual faz parte Noam Chomsky, entre outros, as vinte e cinco escolhidas são reunidas na publicação anual “Censored: The News that didn’t make the News”. A edição de 2003 conta com uma introdução de Robert McChesney.

A política externa norte-americana, os conglomerados de empresas de comunicação guiados apenas pelo lucro e a corrupção nos diversos sectores da sociedade são alguns dos temas mais recorrentes nos compêndios do projecto. Algumas das notícias podem ser visitadas na página da Internet do projecto.

A iniciativa foi criada em 1976 por Carl Jensen, professor de Estudos da Comunicação da SSU. Actualmente é presidida por Peter Philips, professor associado de sociologia na mesma universidade.


Jornalistas no Iraque abusados por tropas americanas

Dois jornalistas da agência noticiosa Reuters e o seu motorista afirmam que foram abusados pelas tropas dos Estados Unidos estacionadas no Iraque. Os alegados acontecimentos reportam-se a Janeiro deste ano, quando o jornalista Ahmad Mohammad Hussein al-Badrani, o repórter de imagem Salem Ureibi e o seu motorista, Sattar Jabar al-Badran, todos de origem iraquiana, foram detidos por militares norte-americanos, perto de Fallujah, quando faziam a cobertura da queda de um helicóptero das forças da coligação.

Segundo a Reuters, após a sua detenção, dois dos elementos do grupo foram forçados pelos soldados a colocar um dedo no ânus e a posteriormente lambê-lo. Os detidos foram ainda obrigados a colocar os sapatos na boca e a fazerem gestos humilhantes, enquanto eram fotografados pelos militares. Um dos funcionários da Reuters afirma mesmo que receou ser violado, visto que um dos soldados disse que queria ter ralações sexuais com ele.

A agência noticiosa acrescenta ainda que, após terem sido colocados em liberdade, os seus empregados foram novamente intimidados pelos militares norte-americanos, que os ameaçaram de levar para a base militar de Guantanamo Bay, em Cuba. Aí, seriam, nas palavras dos soldados, submetidos a torturas de privação do sono e obrigados a permanecer longos períodos em posições desconfortáveis.

Os três envolvidos decidiram divulgar estes acontecimentos no seguimento das conclusões do Exército dos EUA acerca deste caso. Segundo o relatório, apresentado no dia 28 de Janeiro e que não incluía qualquer testemunho por parte das vítimas, nenhum dos militares envolvidos admitiu a prática de tortura física ou psicológica. Estes resultados foram reconfirmados à Reuters na terça-feira passada pelo Tenente-General Ricardo Sanchez, principal comandante no Iraque, o que originou a revolta dos queixosos.

Juntamente com o grupo da Reuters, foi ainda detido um repórter de imagem da cadeia de televisão norte-americana NBC, o qual alega também ter sido vítima de maus-tratos por parte das tropas norte-americanas.

Este episódio de agressões a jornalistas por parte das forças da coligação estacionadas no Iraque surge numa altura em que começaram os primeiros julgamentos a soldados norte-americanos acusados de abusar de prisioneiros iraquianos. Na base destas acções judiciais está o escândalo causado na opinião pública pela publicação de fotografias onde era possível ver prisioneiros iraquianos a serem humilhados por militares americanos.

Links úteis:
- Artigo da Reuters
- Entrevista da Newsobserver.com com Ahmad Mohammad Hussein al-Badrani, um dos jornalistas da Reuters agredidos
- Carta enviada pela CPJ ao Tenente-General Ricardo Sanchez, principal comandante no Iraque, a 21 de Janeiro de 2004, demonstrando a sua preocupação com os abusos que os jornalistas da Reuters tinham sofrido

5/18/2004

Jornalistas despedidos por causa de blogue

Três jornalistas do jornal portuense “O Primeiro de Janeiro” foram despedidos em meados de Abril, devido à sua participação num blogue onde eram descritas algumas das práticas daquele órgão de comunicação.

Em “Diário de Um Jornalista”, seis pessoas debruçavam-se sobre alguns dos procedimentos jornalísticos levados a cabo no seio d’“O Primeiro de Janeiro”, ao mesmo tempo que davam a conhecer algumas das suas lamentações profissionais.

No blogue, uma das principais situações focadas relacionava-se com a ligação dúbia entre a escrita de artigos e a venda de edições especiais. Nos seus textos, os profissionais revelavam situações em que os delegados comerciais acompanhavam os repórteres junto dos entrevistados, ficando a publicação dos artigos pedente da assinatura de contratos publicitários.

Os três jornalistas envolvidos – Sérgio Moreira, o criador, Joel Pinto e uma outra profissional do jornal – não avisaram os seus superiores da criação deste blogue que, entretanto, se tornou cada vez mais conhecido entre a comunidade jornalística.

Desde 30 de Março, dia da sua abertura, até dia 21 de Abril, os autores mantiveram o seu anonimato e o das pessoas referenciadas. No entanto, acabaram por se referir directamente a José Freitas, o responsável pelo departamento de publicações especiais do diário.

A partir deste momento, os jornalistas (que são apenas três dos seis dinamizadores do blogue) foram identificados e despedidos. Segundo a informação disponível no blogue a 18 de Maio de 2004, ainda não haviam recebido qualquer indemnização ou sequer o ordenado referente ao mês de Abril. Isto porque, curiosamente no dia 3 de Maio, dia da Liberdade de Imprensa, foram avisados que “O Primeiro de Janeiro” pretende processar as pessoas envolvidas no “Diário de Um Jornalista” por difamação.

Este caso está a criar grande debate entre a comunidade jornalística. Além dos jantares de solidariedade para com os profissionais previstos para breve, a discussão alargou-se para o debate entre a lealdade e a liberdade de expressão. Entretanto, o “Diário de um Jornalista” mantém a sua actividade.

Links úteis:
- Notícia do suplemento "Computadores", do jornal "Público"
- Artigo do Webjornal

4/28/2004

Ruanda: crimes esquecidos


"But now it's kind of waking up with a sense of failure as a human being. And I can't really describe the dreams themselves, except that it's just crowds of people, crowds of people and, then, waking up and just feeling a sense of failure. It sounds bizarre, but that's what Rwanda has left me with as a human being". Fergal Keane

No início dos anos 90 o mundo começou a viver mais uma década de conflitos bélicos. O mais mediático foi a Guerra do Golfo, mediatismo este conseguido pela bem oleada máquina de propaganda dos Estados Unidos. Nos anos seguintes várias foram as vozes que alertaram para as crescentes tensões no continente africano, mas muitos foram aqueles que calaram as vozes das víctimas de genocídios de populações inteiras.

O caso que aqui se trata decorreu há precisamente dez anos, num país chamado Ruanda, um território que enfrentou um dos maiores horrores do século XX provocados pelo Homem. A seis de Abril de 1994, o presidente do Ruanda, Juvenal Habyarimana, é assassinado quando viajava de avião para a capital do país, Kigali. Horas depois o genocídio começou, levando à destruição de quase um milhão de pessoas.

Os motivos desta matança são raciais. Desde os anos 50 que a maioria Hutu leva a cabo acções de perseguição e morte a membros da minoria Tutsi (a elite que deteve, séculos atrás, o domínio lactifundiário do território e o governo do mesmo). Em 1994, com o apoio da Rádio Mille Colines, que apelava à população a pegarem nas armas e matarem os seus vizinhos tutsi, que mereciam morrer: "kill the Tutsi cockroaches", a maioria étnica Hutu leva a cabo uma acção de morte sobre membros da minoria Tutsi e de Hutus moderados.

Meses antes deste evento macabro, os chefes das milícias Hutu fazem uma petição às Nações Unidas para a aquisição de um grande e considerável número de utensílios agricolas - nomeadamente machados e outros utensílios de corte -, despacho este que foi assinado, segundo Fergal Keane, pelo próprio Kofi Anan.

Quando se iniciam os massacres, as Nações Unidas mandam retirar as suas forças no local, a UNAMIR (Missão de Assistência da Nações Unidas para o Ruanda), uma força com cerca de 2.000 militares, alegando razões de segurança. Para proteger os estrangeiros no país, ficaram 250 militares no terreno.

Durante quatro meses o genocídio victimou mais de 800.000 ruandeses, um massacre que indiscriminava mulheres, crianças, idoso, etc. Só passados quatro meses as Nações Unidas decidiram enviar mais de 5.000 militares para o território, para proteger os civis e fornecer segurança para a acção da Cruz Vermelha Internacional. Contudo, os estados-membros – supostamente os guardiões da paz e da manutenção da mesma – recusaram-se a pôr em risco as suas tropas "algures em África".

Passado este período, os prepertores dos massacres fugiram do país quando o denominado "Rwandan Patriotic Front", um grupo armado da etnia Tutsi, invadiu a capital e pôs fim aos massacres, mas não à guerra. Nos campos de refugiados as condições são mantidas abaixo da de um ser humano, onde milhares de Tutsi se escondiam do seu "predador" habitual, os Hutu que agora refugiados também neste campos, tomavam o controlo da destribuição de alimentos e de abrigo.

A situação não melhorou durante muitos anos, com milhares de orfãos e mutilados por todo país e pelos países vizinhos, onde encontraram abrigo. Entretanto, os criminoso Hutu são perseguidos e assassinados pelos rebeldes Tutsi, mas muitos são feitos prisioneiros e esperam julgamento. Mas uma decisão do actual presidente do Runada, Paul Kagame – antigo líder do "exército" Tutsi –, prevê o perdão e liberdade para os que se mostram arrepenfdidos dos actos que cometeram.

Neste crime quase silenciado pelo Ocidente uma voz se levantou e deu a conhecer ao mundo o que se passou neste país flagelado pelos confrontos étnicos. Fergal keane, correspondente da BBC para o sul de Áfica, deu a conhecer esta história no seu livro "Season of Blood", onde relata, num tom jornalístico, as atrocidades cometidas neste país africano. E como o próprio relata "ainda tenho pessadelos com tudo isto… dez anos depois. Já tinha visto muitos conflitos, muitas mortos, mas nunca tinha assistido a uma atrocidade tão grande… à personificação do mal".

Enquanto milhares e milhares de pessoas inocentes morriam, os media simplesmente preocuparam-se em relatar em directo a greve de transportes francesa que estava a paralisar a Europa, decidindo ignorar os actos atrozes que decorriam no continente africano.

4/27/2004

Serra Leoa: o julgamento de uma guerra civil

Em 1991 teve início na Serra Leoa uma guerra civil que resultou em cinquenta mil mortos e milhares de mutilados. Em Março de 2004 foi inaugurado em Freetown, a capital do país, um tribunal especial para julgar as atrocidades cometidas ao longo dos onze anos de um conflito esquecido pelos títulos dos jornais.



Ainda antes de entrar em funções, o Tribunal Especial para a Serra Leoa era já marcado pela controvérsia. Das treze pessoas inicialmente citadas, apenas nove vão a julgamento, o que coloca a questão se não terá o tribunal falhado a tarefa de julgar os principais responsáveis pelos episódios mais brutais do conflito.

O líder das forças rebeldes da Frente Revolucionária Unida (FRU) Foday Sankoh e o seu comandante Sam Bockarie estão mortos. Paul Keroma, que em 1997 depôs o presidente eleito Ahmad Tejan Kabbah e mais tarde formou uma aliança com os rebeldes FRU, é dado como desaparecido. Charles Taylor, acusado de armar e treinar a FRU, está exilado na Nigéria, que recusa extraditá-lo.

Numa decisão histórica, o Tribunal declarou como “sem efeito” perante a lei internacional a amnistia acordada em Lomé em Julho de 1999. Segundo este acordo os rebeldes receberiam postos de governação e não poderiam ser responsabilizados por crimes de guerra.

Até Janeiro de 2002, data em que foi oficialmente declarado o fim da guerra, a Serra Leoa foi um pólo de total instabilidade. Lutas sangrentas, intercaladas com sucessivos golpes militares, deixaram para trás um país devastado.

Ahmad Tejan Kabbah foi eleito presidente em Julho de 2002, por uma larga maioria. Ele que em 1997 recebeu da empresa britânica Sandline “apoio logístico”, incluindo metralhadoras, apesar das sanções impostas à Serra Leoa pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, que incluíam o bloqueio do fornecimento de armas e petróleo.

O putsch chileno e o envolvimento dos EUA

Salvador Allende

Foi no dia 11 de Setembro de 1973, vinte e oito anos antes dos atentados às americanas Torres Gémeas terem mudado a face do mundo que, do outro lado do globo, no Chile, um golpe de Estado instaurou um dos mais duros regimes da segunda metade do século XX. Apoiado pela grande burguesia, um grupo de militares colocou termo ao governo de Unidade Popular, encabeçado pelo socialista Salvador Allende, e instituiu uma ditadura militar, liderada pelo general Augusto Pinochet.

Passado tanto tempo sobre o golpe, continua, no entanto, por entender realmente o papel que coube aos Estados Unidos neste episódio histórico.

Embora frágeis (mas ricos em recursos agrícolas e minerais), os países da América Andina foram, desde muito cedo, sujeitos a pressões externas, nomeadamente norte-americanas. A primeira expressão desta tentativa de domínio ocorre logo no início do século XX, em 1903, através da provocação da separação da província colombiana do Panamá, para assegurar o controlo do futuro canal transoceânico.

A manipulação política na região continua, essencialmente ao sabor dos interesses comerciais americanos, chegando mesmo a redundar em conflitos armados entre nações. É o caso da guerra do Chaço, entre a Bolívia e o Paraguai (1932-1935), originada essencialmente por interesses contrários das sociedades petrolíferas norte-americanas e britânicas.

Com o final da Segunda Guerra Mundial e devido ao eco provocado na América Andina pelas ideologias extremistas (nazi, fascista e comunista), os EUA procuram, de alguma forma, controlar politicamente aquela região do globo. Assim, a Organização dos Estados Americanos (OEA), criada em 1948, surge mais como uma resposta às inquietações norte-americanas perante a ameaça comunista do que aos interesses dos restantes Estados envolvidos.

O certo é que isso não impede o surgimento de “ilhas” comunistas nas barbas de Washington. Esse é o caso do sucesso da revolução cubana (1960) e da sua tentativa de expansão para os países andinos (caso da Bolívia, por exemplo), com o aparecimento de guerrilhas castristas contra as quais os EUA apoiaram diversas acções militares.

É neste contexto que surge a acção norte-americana no Chile. Depois da eleição do socialista Salvador Allende para presidente da República pelo Parlamento chileno, a 24 de Outubro de 1970, os EUA começam a hostilizar aquele país, temendo o surgimento de uma segunda Cuba.

No entanto, nunca até 19 de Fevereiro do ano passado, um responsável norte-americano reconhecera oficialmente o papel dos EUA no golpe militar que derrubou Salvador Allende. Esse momento histórico aconteceu numa mesa redonda com estudantes de liceu, em que o secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, foi questionado sobre o envolvimento dos Estados Unidos nesse episódio histórico. “Não é uma parte da nossa história de que possamos orgulhar-nos”, afirmou então o responsável máximo pela política externa norte-americana.

O certo é que grande parte do envolvimento norte-americano neste episódio histórico já havia sido tornado público com a desclassificação de vários documentos relativos a esse período, ordenada pelo Presidente Clinton.

Revelações de que o Presidente Nixon havia dado instruções no sentido da CIA sabotar a economia chilena e de evitar a eleição de Allende, ou, em caso extremo, de assegurar a sua deposição, são apenas algumas das situações que estes documentos descrevem.

Entre os documentos desclassificados pode encontrar-se correspondência entre o embaixador norte-americano no Chile em 1971, Edward Korry, e o presidente Eduardo Frei, conspirando sob a melhor forma de evitar a tomada de posse de Salvador Allende como Presidente da República, já depois deste ter sido eleito, ou ainda memorandos e outra documentação da CIA acerca do “Projecto FUBELT”, uma operação secreta que tinha como objectivo promover um golpe militar e minar o governo de Unidade Popular, liderado por Allende.

É possível ainda consultar documentos do National Security Council, que reconhecem esforços no sentido de desestabilizar o Chile economicamente e isolar diplomaticamente o país, entre 1970 e 1973.

Por outro lado, ainda desta mesma agência, é também permitido consultar documentação que comprova que, após o golpe militar, os Estados Unidos estavam a par dos ataques aos direitos humanos cometidos pelo regime liderado por Pinochet.

Assim, com a leitura destes documentos, torna-se inequívoca a participação norte-americana na planificação da deposição armada de Salvador Allende. A isto acresce facto de a Administração norte-americana estar a par da política de repressão levada posteriormente a cabo pelo regime militar que ajudou a erguer no Chile, sem que tenha tido, no entanto, qualquer tipo de intervenção para evitar as atrocidades ordenadas pelo general Pinochet.


Links úteis:
- Chile e Estados Unidos: Documentos desclassificados referentes ao golpe militar: 1970-1976 (em inglês, disponibilizados pela The George Washington University)
- Dossier do jornal "Público" sobre os trinta anos do golpe militar no Chile

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O custo da guerra no Iraque para a Administração norte-americana
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